No caminho para o primeiro dos cinco títulos mundiais do Brasil, em 1958, uma jogada marcou a história. Na vitória por 3 a 0 sobre a Áustria, o lateral esquerdo Nilton Santos, então em posição defensiva, arrancou para o ataque. Zagallo, ponta-esquerda da equipe, disse em 2013: “Ele arrancou para o ataque, e eu gritei: ‘Vai em frente que eu fico no seu lugar'”. O técnico Vicente Feola se desesperou, mas aplaudiu quando Nilton fez o gol. “A partir dali, os laterais nunca mais jogaram do mesmo jeito.”
O Brasil construiu seu pentacampeonato com grandes laterais. Em 1958 e 1962, Djalma Santos e Nilton Santos. Em 1970, Carlos Alberto fez o gol mais bonito do melhor time. Em 1994, Branco e Jorginho foram decisivos. Em 2002, a dupla excepcional Cafu e Roberto Carlos.
Para 2026, na luta pelo hexa, o cenário é diferente. A seleção vive raro momento de escassez nas laterais. O técnico Carlo Ancelotti admite isso e teve seu trabalho dificultado nesta semana. Tudo indicava que usaria na direita o zagueiro Éder Militão, do Real Madrid, que já atuou na função. O beque de 28 anos, no entanto, passou por cirurgia na coxa esquerda e está fora da Copa.
A opção inicial já era um improviso. As alternativas também são. Wesley, 22, surgiu como lateral direito, mas atua na Roma como ala esquerdo, em papel ofensivo. Danilo, 34, foi lateral em boa parte da carreira, hoje é zagueiro reserva do Flamengo. Ancelotti confirmou o nome de Danilo na lista de 26 a ser anunciada em 18 de maio. A escolha está ligada à experiência e à liderança silenciosa, mais do que à produção em campo. “Danilo é um jogador muito importante, não só em campo. É seguro que estará na lista final porque eu gosto dele. Como caráter, como personalidade, também como jogo”, disse o italiano.
Desde que assumiu a seleção, Ancelotti convocou Vanderson, 24, do Monaco, em recuperação de lesão, Paulo Henrique, 29, do Vasco, e Vitinho, 26, do Botafogo. Ibañez, 27, zagueiro do Al Ahli, também pode ser adaptado à lateral direita. Na esquerda, os escolhidos devem ser Alex Sandro, 35, do Flamengo, e Douglas Santos, 32, do Zenit, ambos defensivos. O técnico demonstrou confiança em Caio Henrique, 28, do Monaco, também em recuperação. Testou Carlos Augusto, 27, da Inter de Milão, Luciano Juba, 26, do Bahia, e Kaiki, 23, do Cruzeiro. Há clamor por Matheus Bidu, 26, do Corinthians, em ótima fase, mas é improvável que alguém sem experiência na seleção vá à Copa.
O cenário nas laterais é frágil para o padrão histórico do Brasil. A prioridade de Ancelotti é por jogadores defensivamente sólidos, capazes de desarmes e de iniciar contragolpes para atacantes velozes como Vinicius Junior. O time não contará com Djalma Santos e Nilton Santos, como em 1958 e 1962. O pôster do hexa, se vier, poderá ter Douglas Santos.
